Precisamos mesmo de um “reset” em setembro?
Entre a vontade de mudar e a pressão para recomeçar, ajustar pode ser mais importante do que começar do zero.

Setembro chega e, de repente, parece que tudo cabe numa lista.
Vou comer melhor. Vou dormir mais. Vou voltar ao exercício. Vou passar mais tempo com os meus. Vou finalmente cuidar de mim.
A sensação de que “agora é que é” não acontece por acaso. A investigação em psicologia descreveu aquilo a que chama fresh-start effect: a tendência para encararmos determinados momentos, como acontece no início de um ano, de um mês, de um semestre ou até uma nova semana, como pontos de partida. Esses marcos podem aumentar a motivação para perseguir objetivos e deixar para trás aquilo que sentimos que não correu tão bem.
E setembro reúne vários destes sinais. As férias terminam, as rotinas regressam e começa uma nova etapa. Talvez por isso surja aquela vontade de pôr tudo em ordem.
Mas será que precisamos mesmo de pôr tudo em ordem?
A tentação do “tudo ou nada”
Quando pensamos em melhorar o nosso estilo de vida, é fácil cair no “tudo ou nada”.
Uma nova alimentação. Uma rotina de exercício mais exigente. Horários planeados ao minuto. Mais tempo livre. Menos stress.
E, tendencialmente, tudo a partir de segunda-feira.
O problema é que a vida real não funciona assim.
Há semanas mais tranquilas e outras mais exigentes. Há dias em que conseguimos cumprir o que planeámos e outros em que não conseguimos. Uma mudança pode parecer simples no papel e revelar-se difícil quando precisa de coexistir com trabalho, família, responsabilidades e imprevistos.
Por isso, talvez a pergunta mais útil este setembro não seja “o que preciso de mudar?”
Talvez faça mais sentido questionar: “O que está a funcionar e o que posso ajustar?”
A saúde não cabe numa lista
É precisamente esta visão integrada que está na base da Medicina do Estilo de Vida.
O American College of Lifestyle Medicine trabalha com seis pilares interligados: alimentação, atividade física, sono restaurador, gestão do stress, relações sociais positivas e redução de comportamentos de risco. Na Clínica Estilo de Vida, partimos desta evidência e ampliamos este olhar através dos nossos seis pilares, procurando compreender a pessoa e o seu contexto como um todo.
A ideia é simples: estes comportamentos não acontecem isoladamente. Influenciam-se entre si e fazem parte do mesmo contexto de vida.
Dormir mal pode afetar a energia e a disponibilidade para fazer exercício. O stress pode interferir com o sono e com a alimentação. Uma rotina demasiado preenchida pode deixar pouco espaço para descansar ou estar com quem realmente queremos estar.
Por isso, cuidar da saúde não significa necessariamente acrescentar mais coisas à agenda.
Pode significar perceber onde está o maior desequilíbrio e começar por aí.
Retomar sem compensar
O exercício é um bom exemplo.
Depois de um período de férias ou de menor atividade, podemos sentir que precisamos de recuperar rapidamente. Mas não é preciso compensar o que ficou para trás.
Pode significar começar por duas sessões de exercício por semana. Caminhar mais. Subir escadas. Interromper períodos prolongados sentado. Encontrar uma atividade de que realmente gostamos.
A mesma lógica aplica-se à alimentação.
Em vez de começar setembro com uma lista de alimentos proibidos, podemos olhar para aquilo que falta na nossa alimentação habitual.
Mais vegetais. Mais fruta. Mais leguminosas. Mais cereais integrais. Fontes adequadas de proteína. Alimentos pouco processados e nutricionalmente densos.
A ideia é olhar para o padrão que se repete na maioria dos dias e perceber onde existe espaço para melhorar.
Os hábitos precisam de tempo
Também aqui setembro pode criar expectativas pouco realistas.
Existe uma ideia muito conhecida de que são necessários 21 dias para criar um hábito. A investigação não sustenta essa regra.
Num estudo sobre a formação de hábitos no quotidiano, os investigadores encontraram uma grande variabilidade entre pessoas no tempo necessário para que um comportamento se tornasse mais automático. O que pareceu ser mais importante foi a repetição do comportamento num contexto consistente.
Isto significa que uma mudança não precisa de ser perfeita para ser útil.
Precisa de ser repetida.
Uma caminhada que fazemos regularmente pode ser mais importante do que um plano de treino que desistimos ao fim de três semanas. Preparar mais vezes uma refeição em casa pode ser mais relevante do que seguir durante poucos dias uma dieta impossível de manter.
Parar e questionar
Em vez de fazer uma lista de resoluções em setembro, talvez possamos começar por fazer uma pausa e refletir.
Como tenho dormido?
Tenho-me mexido o suficiente?
Como é a minha alimentação na maioria dos dias?
Tenho conseguido parar?
Tenho tempo para as pessoas que são importantes para mim?
E, sobretudo, há alguma coisa que possa fazer de forma diferente e que seja realmente possível manter?
Não é preciso responder a tudo de uma vez.
Pode bastar escolher uma coisa.
E, a partir daí, escolher uma mudança que faça sentido, seja realista e possa prolongar-se para os restantes meses do ano.
Setembro não precisa de um “reset”
Não é necessário esperar por setembro para começar um novo estilo de vida.
Mas podemos aproveitar este momento de regresso às rotinas para olhar para o que temos feito, reconhecer o que funciona e identificar o que pode ser diferente.
Sem extremos. Sem a obrigação de fazer tudo ao mesmo tempo. Sem transformar um novo mês numa nova versão de nós próprios.
Um estilo de vida saudável constrói-se nas escolhas que conseguimos repetir.
Por isso, talvez este setembro não precise de fazer um “reset”.
Talvez seja preciso apenas um ajuste.
Referências
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